domingo, 4 de março de 2012

Seguro a minha própria mão no escuro. Não há necessidade de se fechar os olhos mas eu fecho para tornar mais real. A mão direita é sempre a tua, que acaricia e brinca com meus dedos. Esse encaixe perfeito que as nossas mãos têm. Anatomia sentimental e crônica. Nesses tempos de cólera, há o amor. Porque o amor nada mais é do que doença: mata mais, consome mais, transmite mais a loucura nas veias azuis dos nossos corpos. Deixa o corpo vivo, a mente insana e o cérebro inválido. Potencializa o que é ignorado (dizem os médicos). Não tem remédio, bula, receita, comprimido. Não segue a prescrição médica, a ata formal. E, como na peste, mata.

O amor é demônio manso, maltrata devagar, age vagaroso mas domina o organismo. Pula de célula a célula, destruindo e destituindo-a das funções vitais. Ainda que aparentemos ter vida. Não existem profilaxias e de nada adianta lavar bem as mãos, os olhos, não andar descalço, evitar contatos. O amor é facilmente transmitido sendo qualquer carta, poema, fala ou olhar mais intenso logradouro perfeito para ser contagiado.
O nome presente no livro que me deu origem, de certa forma. Já conhecido e lido tantas vezes. Na minha vida, nada é coincidência. O de vida leve vem para retirar os antigos pesos em meus ombros exaustos. Eu, pobre Teresa, quero ter algo para oferecer que nada compartilhe com a antiga vida pesada que possuía. Já o vejo em meu entorno, seu espírito livre, ensinando o que nunca me ensinaram e sentindo e dizendo palavras de silêncio. Sintaxe, simbiose, e súplica orgânica. Não liquefaz, porque não deve. Cinco minutos e eu já me sentia perdida / encontrada. Criança no cesto entregue à própria sorte. Tudo depende da referência-preferência. Já pego teu jeito teu dengo, escrevo o que vem. Empenhei o coração e o sentimento. Espero que voce os dê preço e vontade.
É que falta luz em casa e eu comecei a pensar assim: uma palavra contrária, antônima, nada mais é do que a outra palavra mais forte. Nada é negação ou oposto mas partem sempre da mesma raíz. O ódio é o amor enfraquecido, a loucura, o amor levado ao extremo. Só você teve coragem para olhar nos meus olhos. Seria tudo mais fácil se eu tivesse mais coragem e menos medo ou mais medo e menos coragem. No fim, é a mesma coisa. As palavras têm todas uma origem só. Quem sabe? Aquele que inventou tudo isso deveria ser milionário. O inventor das palavras, grande mago dos advérbios, senhor do coração. Talvez ele ande por ai mendigando adjetivos, como migalhas. Patentear sentimentos, o amor - marca registrada em cartório.
A luz deveria voltar. Quase cega, escrevo nessas folhas mas o pensamento não queima ou se apaga ou entra em curto circuito como a luz da rua. Escrever seria poético, não fosse meu desespero.
Entre olhares. O que há na lacuna do alcance de um olho e do outro? Que é que se acha entre duas palavras soltas, no espaço criado entre elas? Do que é feito o silêncio? Talvez seja você o par de Joana. Aquele que repousa lentamente em seus ombros, dialogando mesmo que sem fala. Não sei quantas calçadas nos separam. Quantas casas, quantos paralelepípedos, passos, polegadas, fios de cabelo ou qualquer que seja a unidade de medida. Te sinto saudades, te sinto vontade das mãos. A falta de luz faz com que eu aprenda a viver sem seguir certos sinais visíveis. E eu me sinto de novo aprendendo a ser guiada.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Piquei papel
te fiz confete
te joguei pelos ares
sobrevoou a cidade
Feito ave
sem se juntar mais.

No abre-alas, te fiz destaque
e te larguei.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Carnaval sozinho
Semana sambando
semana bebendo
não lembrar nem nome
endereço, RG.
(...)
Quarta-feira de cinzas
me esqueci na sarjeta
mas lembrei de você.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

É quando me ligam que penso talvezeletenhameunúmero. É quando desconheço o número e mesmo assim atendo com um habitual alô e nada me respondem do outro lado. Nessas horas, penso: é ele, é ele que conseguiu revirar fichas, currículos, documentos e decorou aquela sequência de números anotando na mão como sempre fiz. Mas nada me dizem do outro lado, nem respiração se pode perceber. Eu falo mas não me respondem. Desligam. Ponho o telefone no gancho e espero o novo engano. Pensando em desespero que não é mais do que um modo de matar as saudades.