quinta-feira, 17 de junho de 2010
Era a praça, toda noite, era a praça. Colocava o seu melhor vestido, o cabelo em ondas descendo as costas. No sol, brilhavam como fogo. Mas era sempre noite quando ela saía. Pipocas e risos, casais que se juntam no coreto para valsinhas. Vai dançando, de par em par, na promessa de um amor eterno. Pega nas mãos, olha nos olhos e se entrega até o fim da canção. É assim noite após noite - sempre aos sábados. Ela espera. Sabe que um dia pegará nas mãos de alguém, olhará nos olhos, perceberá que as valsas agora fazem sentido e dirá: É ele.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Hoje, é meu aniversário.
Quando criança, minha ideia de aniversário era uma festa, bexigas coloridas, papéis brilhantes e de cores vivas embrulhando os presentes – secretos. Esperar ansiosa pelo dia, contar nos dedos, fazer planos. Acordar com as mãos de mãe fazendo cócegas e o telefone que já tocava antecipando desejos de feliz aniversário. Refrigerante e um bolo caseiro com velas, familiares, amigos, colegas e até os que nunca trocaram uma palavra comigo. Naquele momento eramos um grupo, reunido em torno de um objetivo: presenciar a felicidade de alguém. Estávamos todos unidos por algo que eu não entendia, numa atmosfera quase mágica e, acima de tudo, feliz. Sempre havia um primo que não aguentava esperar pelos doces e, olhando sempre ao redor, escondia sob os dedos um brigadeiro para depois o comer, sorrateiro.
E eu abria os presentes. Oh! Aquela boneca que eu tanto queria! Um urso de pelúcia! Era brinquedo para brincar por dias, semanas.
Crescer é perder tudo isso. Crescer é não ter mais expectativa. Crescer é.. tornar-se frio?
Onde foram parar as bexigas? Onde foram parar as pessoas?
O telefone não toca mais. Onde estão as mãos quentes que me acordavam pela manhã de meu aniversário com palavras doces e amorosas? Eu sei onde estão. Mas daqui, elas não podem me alcançar. Ou não devem. Eu diria até que não querem. Mas mãe sempre quer. Talvez quem não queira seja eu, então... mas eu também quero. Então por que as mãos não se encontram mais?
Aquele primo da festa está longe, não existe mais. Também não existem os doces que seriam roubados.
Só existe uma saudade. Mas sou adulta! E isso é sinônimo de passar os aniversários sozinha. Só que isso ninguém me avisou. Será que é algo que deveríamos aprender sozinhos? Um ritual de passagem?
As pessoas já não se unem mais para festejar algo maior. O algo maior não tem valor. Não há mais velas ou troca de felicitações. No máximo, um cartão de papelaria com uma frase pronta. Coloque meu nome e mande – pois não tenho tempo a perder.
Relacionamentos poderiam ser sintetizados nisso: Um cartão, frases feitas, silêncios.
Falta tempo?
Um dia sozinha. Mais um?
Monólogo entre quatro paredes. Presentes que compro para mim mesma.
Fazer aniversário não é mais festa. Eu já nasci, já aprendi a andar. Agora podem começar a me esquecer.
Já passei, já passou, já passamos.
Sei que não devo esperar nada. Mas ainda aguardo, ao lado do telefone, uma ligação, um contato, um diálogo, mesmo que por engano. Só para eu dizer e comemorar, com o peito estufado de orgulho: hoje, é meu aniversário.
E eu abria os presentes. Oh! Aquela boneca que eu tanto queria! Um urso de pelúcia! Era brinquedo para brincar por dias, semanas.
Crescer é perder tudo isso. Crescer é não ter mais expectativa. Crescer é.. tornar-se frio?
Onde foram parar as bexigas? Onde foram parar as pessoas?
O telefone não toca mais. Onde estão as mãos quentes que me acordavam pela manhã de meu aniversário com palavras doces e amorosas? Eu sei onde estão. Mas daqui, elas não podem me alcançar. Ou não devem. Eu diria até que não querem. Mas mãe sempre quer. Talvez quem não queira seja eu, então... mas eu também quero. Então por que as mãos não se encontram mais?
Aquele primo da festa está longe, não existe mais. Também não existem os doces que seriam roubados.
Só existe uma saudade. Mas sou adulta! E isso é sinônimo de passar os aniversários sozinha. Só que isso ninguém me avisou. Será que é algo que deveríamos aprender sozinhos? Um ritual de passagem?
As pessoas já não se unem mais para festejar algo maior. O algo maior não tem valor. Não há mais velas ou troca de felicitações. No máximo, um cartão de papelaria com uma frase pronta. Coloque meu nome e mande – pois não tenho tempo a perder.
Relacionamentos poderiam ser sintetizados nisso: Um cartão, frases feitas, silêncios.
Falta tempo?
Um dia sozinha. Mais um?
Monólogo entre quatro paredes. Presentes que compro para mim mesma.
Fazer aniversário não é mais festa. Eu já nasci, já aprendi a andar. Agora podem começar a me esquecer.
Já passei, já passou, já passamos.
Sei que não devo esperar nada. Mas ainda aguardo, ao lado do telefone, uma ligação, um contato, um diálogo, mesmo que por engano. Só para eu dizer e comemorar, com o peito estufado de orgulho: hoje, é meu aniversário.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Sorrir enquanto por dentro chora. Mostrar-se feliz enquanto, por dentro, sangra.
E sangra muito. O machucado é profundo. E o pior de tudo: não para. Alguém me dê a cura, por favor! - eu suplico. Mas sei que não há cura alguma. Na verdade, não há nada além disso: dor. Em mim e em todos à minha volta. Dor.
Uma hora você se acostuma – dizem. Mas não consigo me acostumar. Parece ficar mais intensa, a faca no peito não sai. Era pra sair?
Ninguém consegue arrancar o que me machuca, ninguém consegue completar o que me falta. Sem querer me dei conta. Eu tenho tantos ao meu redor e na verdade sou a mais solitária dos seres.
Porque todas as conversas não são o bastante. Eu quero mais. Eu preciso de mais – me dê para que eu possa beber dessa fonte e ser feliz. Mas você não me dá, nem dará.
Por motivos dos quais desconheço ou não aceito. Por um objetivo ao qual nem você acredita mais. A moral já se perdeu por entre os tempos - assim como eu.
O vazio. O vazio. Eu tento identificar onde e como ele começou, não consigo. Eu-era-tão-feliz-tinha-tudo-e-não-sabia-agora-só-me-resta-essa-solidão-horrenda.
Não há mais raízes, não há mais espaço, não há mais nem razão. Só que continua doendo.
Eu volto, eu voltarei, eu gostaria de voltar. Já não posso. Desconheço outra de mim que não essa de agora. Já tive outra face? Já tive um dia um sorriso? A boca sempre fechada, os dentes unidos – inseparáveis. Se quiser, poderei separá-los? Mas eu sei que não quero.
Já se passaram tantos anos... perdi a vontade de ser boa, perdi a vontade de...só ser.
Ser algo me desgasta. Ser algo necessita esforços. Ser me dói... nos dói.
Me ensinaram a pensar tantas coisas, a imaginar tantas coisas... mas não me ensinaram isso, ninguém se propôs a explicar. Olha, porque para ser, você precisa de... - Mas não sabem o que vem depois das reticências. Ser são reticências, penso. Mas não faz sentido e nesse momento é tudo o que preciso: algum sentido.
Mas ninguém me explicou, nem você. E eu não consigo aprender sozinha. Eu não consigo mais nada. Falta-me força, falta-me coragem, falta-me alguma coisa que se perdeu a tanto tempo... Falta-me algo que nunca encontrei, algo sem forma, sem cheiro, sem cor. Eu procurei tanto, tanto... Em todas as esquinas, as ruas, os rostos, as luzes. Nunca achei e essa ausência me mata – todos os dias, de pouquinho em pouquinho... Mas não morro. Quanto tempo tenho até desaparecer para sempre? Das memórias dele, dos diários, das recordações alheias, de mim?
E sangra muito. O machucado é profundo. E o pior de tudo: não para. Alguém me dê a cura, por favor! - eu suplico. Mas sei que não há cura alguma. Na verdade, não há nada além disso: dor. Em mim e em todos à minha volta. Dor.
Uma hora você se acostuma – dizem. Mas não consigo me acostumar. Parece ficar mais intensa, a faca no peito não sai. Era pra sair?
Ninguém consegue arrancar o que me machuca, ninguém consegue completar o que me falta. Sem querer me dei conta. Eu tenho tantos ao meu redor e na verdade sou a mais solitária dos seres.
Porque todas as conversas não são o bastante. Eu quero mais. Eu preciso de mais – me dê para que eu possa beber dessa fonte e ser feliz. Mas você não me dá, nem dará.
Por motivos dos quais desconheço ou não aceito. Por um objetivo ao qual nem você acredita mais. A moral já se perdeu por entre os tempos - assim como eu.
O vazio. O vazio. Eu tento identificar onde e como ele começou, não consigo. Eu-era-tão-feliz-tinha-tudo-e-não-sabia-agora-só-me-resta-essa-solidão-horrenda.
Não há mais raízes, não há mais espaço, não há mais nem razão. Só que continua doendo.
Eu volto, eu voltarei, eu gostaria de voltar. Já não posso. Desconheço outra de mim que não essa de agora. Já tive outra face? Já tive um dia um sorriso? A boca sempre fechada, os dentes unidos – inseparáveis. Se quiser, poderei separá-los? Mas eu sei que não quero.
Já se passaram tantos anos... perdi a vontade de ser boa, perdi a vontade de...só ser.
Ser algo me desgasta. Ser algo necessita esforços. Ser me dói... nos dói.
Me ensinaram a pensar tantas coisas, a imaginar tantas coisas... mas não me ensinaram isso, ninguém se propôs a explicar. Olha, porque para ser, você precisa de... - Mas não sabem o que vem depois das reticências. Ser são reticências, penso. Mas não faz sentido e nesse momento é tudo o que preciso: algum sentido.
Mas ninguém me explicou, nem você. E eu não consigo aprender sozinha. Eu não consigo mais nada. Falta-me força, falta-me coragem, falta-me alguma coisa que se perdeu a tanto tempo... Falta-me algo que nunca encontrei, algo sem forma, sem cheiro, sem cor. Eu procurei tanto, tanto... Em todas as esquinas, as ruas, os rostos, as luzes. Nunca achei e essa ausência me mata – todos os dias, de pouquinho em pouquinho... Mas não morro. Quanto tempo tenho até desaparecer para sempre? Das memórias dele, dos diários, das recordações alheias, de mim?
segunda-feira, 29 de março de 2010
Na fumaça de um incenso.
Acendo um incenso. Ele se queima rápido, mal vejo. Cinzas que me lembram a dos cigarros... ou a dos mortos. Renovação. O ar com um leve cheiro de hortelã. Cantigas ao fundo, num clima quase místico. Seguro- o com as mãos, sacudindo-o no ar. Tanto o ar quanto eu: ambos limpos. Continua queimando rápido. Rezo. Peço todas as coisas, peço paz, peço um dia bom, peço purificação. E recebo. Hoje não quero ser eu. Quero ser uma partícula de poeira, a fumaça do incenso. Acho que até já sou: Sou simples e complexa. Sou nova e milenar. Carrego comigo outras mil de mim. Trago todas as dúvidas e as respostas, todas as razões e os sentidos. Ao mesmo tempo que não trago nada.
Mas não quero saber de complexidades, pelo menos hoje. Hoje quero apenas a fumaça do incenso na casa, enquanto canto, enquanto danço, enquanto peço e, acima de tudo, enquanto agradeço. E respiro na tranquilidade, na solidão que não é ruim. Com os pés descalços, caminho. Solta de tudo que me prende, livre dos grilhões. O incenso está acabando, a fumaça vai rumo à janela, ao céu e segue. É o meu jeito de mandar minha mensagem aos Deuses, assim como faziam as culturas milenares. É o meu jeito de dizer: Estou aqui.
Mas não quero saber de complexidades, pelo menos hoje. Hoje quero apenas a fumaça do incenso na casa, enquanto canto, enquanto danço, enquanto peço e, acima de tudo, enquanto agradeço. E respiro na tranquilidade, na solidão que não é ruim. Com os pés descalços, caminho. Solta de tudo que me prende, livre dos grilhões. O incenso está acabando, a fumaça vai rumo à janela, ao céu e segue. É o meu jeito de mandar minha mensagem aos Deuses, assim como faziam as culturas milenares. É o meu jeito de dizer: Estou aqui.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Décimo Andar
Para ouvir ao som de Construção - Chico Buarque.
Manhã de Domingo. Bem linda, bem clara, bem limpa. Um sono com sonhos coloridos e brilhantes, sem sentido algum. De repente vozes e um barulho tão forte que, de dentro do sonho mesmo, pensei: uma batida de carro. E, ainda sonhando, não soube se o barulho era verdade ou se fui eu que o inventei. Despertei em um salto, assustada. Vozes em uníssono gritavam: coitado! caiu!
A verdade me bateu na cara como um tapa, que doeu mais do que qualquer tapa que já recebi.
Um homem, inerte, que havia pulado do décimo andar. O barulho que ouvi? Som do baque do corpo contra o concreto. Perto de minha janela. O sangue quente, os olhos sem cor. Concreto vermelho e o líquido da vida anunciando a morte. Morte. Essa palavra tão feia, tão suja. As cabeças surgiam devagar pelas janelas, corpos se amontoavam, dando cotoveladas, em volta dele. Crianças corriam pra ver. Eu só consegui ouvir os choros, as palavras das pessoas indignadas ao redor. Todos esses barulhos misturados ao meu próprio pranto. Tinha mulher, tinha filhos. Mas faltava. O que?
A rede da janela cortada, sirenes. Ninguém o cobriu. O rosto ali, para quem quisesse ver. Os motivos? Ninguém sabe. Era bom moço, trabalhador, ouço dizerem. O corpo? Será levado. Mais um hoje, chefe, um covarde, mente fraca porque ninguém tem o direito de tirar o que Deus deu. Não é o que dizem?
Talvez seja exatamente o contrário. Talvez ele fosse limpo demais, inocente demais para viver no meio de toda essa podridão. E foi forte e corajoso o bastante para abandonar isso em busca de algo intocado e puro.
Eu não sei o que o homem pensou. E nem sei mais o que eu estou pensando. Mas, hoje, vestirei branco e rezarei. Por ele e, principalmente, por uma humanidade mais bonita, pelo fim dos amanhãs sujos e do futuro incerto. Vamos sorrir, vamos amar uns aos outros, vamos buscar uma harmonia para que muitos como ele encontrem aqui o que foram buscar em outro lugar!
Enquanto isso, a marca de seu sangue demorará a sair, para nos lembrar dele, para deixar a faca no coração. E, de repente, o domingo se tornou sombrio e tão escuro que já não consigo enxergar. Nem compreender.
Manhã de Domingo. Bem linda, bem clara, bem limpa. Um sono com sonhos coloridos e brilhantes, sem sentido algum. De repente vozes e um barulho tão forte que, de dentro do sonho mesmo, pensei: uma batida de carro. E, ainda sonhando, não soube se o barulho era verdade ou se fui eu que o inventei. Despertei em um salto, assustada. Vozes em uníssono gritavam: coitado! caiu!
A verdade me bateu na cara como um tapa, que doeu mais do que qualquer tapa que já recebi.
Um homem, inerte, que havia pulado do décimo andar. O barulho que ouvi? Som do baque do corpo contra o concreto. Perto de minha janela. O sangue quente, os olhos sem cor. Concreto vermelho e o líquido da vida anunciando a morte. Morte. Essa palavra tão feia, tão suja. As cabeças surgiam devagar pelas janelas, corpos se amontoavam, dando cotoveladas, em volta dele. Crianças corriam pra ver. Eu só consegui ouvir os choros, as palavras das pessoas indignadas ao redor. Todos esses barulhos misturados ao meu próprio pranto. Tinha mulher, tinha filhos. Mas faltava. O que?
A rede da janela cortada, sirenes. Ninguém o cobriu. O rosto ali, para quem quisesse ver. Os motivos? Ninguém sabe. Era bom moço, trabalhador, ouço dizerem. O corpo? Será levado. Mais um hoje, chefe, um covarde, mente fraca porque ninguém tem o direito de tirar o que Deus deu. Não é o que dizem?
Talvez seja exatamente o contrário. Talvez ele fosse limpo demais, inocente demais para viver no meio de toda essa podridão. E foi forte e corajoso o bastante para abandonar isso em busca de algo intocado e puro.
Eu não sei o que o homem pensou. E nem sei mais o que eu estou pensando. Mas, hoje, vestirei branco e rezarei. Por ele e, principalmente, por uma humanidade mais bonita, pelo fim dos amanhãs sujos e do futuro incerto. Vamos sorrir, vamos amar uns aos outros, vamos buscar uma harmonia para que muitos como ele encontrem aqui o que foram buscar em outro lugar!
Enquanto isso, a marca de seu sangue demorará a sair, para nos lembrar dele, para deixar a faca no coração. E, de repente, o domingo se tornou sombrio e tão escuro que já não consigo enxergar. Nem compreender.
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