Não sei por que fui falar logo tua música. A primeira. Não sei, ele me perguntou uma música que havia me marcado e eu já estava decidida a não mentir. Ele me perguntou e foi a única que consegui lembrar. Na verdade, eu lembrava de várias, mas essa era a que eu queria falar. Essa foi a que me despertou pras outras, então não teria sentido falar das outras sem a que deu início. Eu já estava certa de que falaria mas nada aconteceria. Falei. Eu sei porque foi logo tua música.
Depois quando fui assistir às minhas verdades, enquanto todos chegavam, enquanto todos bebiam e falavam, enquanto tudo isso acontecia e girava e girava lá estava eu sentada, com a bolsa no colo como fico quando não me sinto confortável. E uma bagunça de notas me fez prestar atenção ao som, a desligar vozes e só prestar atenção na música. Uma troca de olhares com ele já confirmava o que antes era suspeita. A bagunça logo despertou em mim a certeza da tua música na sala. E ninguém entendia, era esse o propósito, ninguém sabia de quem tinha vindo, pode ser ao acaso, como pode não ser e continuaram na mesma, bebendo e bebendo e falando. E ninguém sabia de onde vinha a história, de onde vinha a música. Só eu e ele, o ouvinte. Só eu e ele, o que arquitetou e planejou tudo aquilo, o que se divertia com meus olhares ouvindo a música do outro, enquanto eu segurava o choro, as pernas inquietas e as unhas que machucam os joelhos e os braços de propósito, pra ver se a dor de fora consegue ser pior do que a de dentro. Por exatos 2 minutos e 55 segundos, o mundo compartilhou da minha história. Mesmo que esse mundo se resuma a um punhado de pessoas bebendo e falando sem se importar se a música era tua, ou não.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Divagações (não tão) tolas sobre arte.
Arte hoje não é uma coisa que deve ser destruída para um recomeço. Todos são artistas, é uma coisa inata ao ser humano: a arte. Só nos esquecemos de deixar isso fluir, de treinar, e a capacidade acaba perdida no tempo, criando o pensamento tão em voga hoje de que artista e arte são coisas sublimes, em patamares superiores e que não são para qualquer um. Arte tem a ideia de complexidade, de intelectualidade e não é. Arte é das massas, qualquer um pode entendê-la.
O que penso é que damos muito valor às obras-primas, taxando-as de difíceis e inacessíveis. Achamos que tais obras não nos servem. Ao contrário: servem e muito, só precisamos aprender como enxergá-las. Não podemos visualizá-las como obras pertencentes ao passado e só, sem uso para o hoje. Devemos, ao contrário, ser capazes de transportar esta arte para o que vivemos. Treinar a habilidade de levar o conceito da arte para a pós-modernidade.
Ao ouvirmos o mito de Édipo, por exemplo, podemos pensar que é algo inútil, velho e desgastado pelo tempo – sem perceber que ele continua atualíssimo, basta que o transportemos para o atual. Basta que mudemos palavras, tempos, pessoas, culturas, hábitos. A essência, essa, continua intacta. A humanidade anda em círculos. O que muda são os gestos, o tempo. A ideia é sempre original. Se soubermos como levá-la para o cotidiano, para o que nos cerca, toda arte é do presente. O problema é que isso não nos ensinam. Não nos ensinam a ver a raíz, só enxergamos o topo, o supérfluo, só conseguimos sentir o cheiro de antigo, as palavras arcaicas.
Os problemas continuam sempre os mesmos, os amores, as dores. É nosso dever restaurar, ensinar, aplicar diariamente essa habilidade esquecida de transpor barreiras para que a arte continue sendo arte – para que, mesmo antiga, a arte continue nos fazendo sentir e – principalmente – pensar.
Precisamos parar com a noção que nos implantaram de que arte é para poucos, arte é para burguês, elitizados. O que podemos e devemos fazer é transportar a arte e modificá-la para uma fácil compreensão nossa, sem retirar-lhe o sentido, o núcleo.
A morte de qualquer arte se dá quando separam(os?) o artista do público. Quando o público se torna passivo, a arte tem seu fim - ela se isola para poucos, perde uma de suas funções: a de acordar e atingir o maior número de pessoas possível.
O que podemos inferir se formos passivos continuamente? O que podemos pensar ou deduzir se recebemos a explicação do criador, mastigada, entregue diretamente em nossas mãos, e esquecemos de criar a nossa própria explicação? Quando recebemos a opinião do criador, esquecemos da nossa, por achar que qualquer coisa que fuja do que ele pensou está errada, e tomamos como verdades absolutas o que nos é mostrado. Sendo que arte está longe de ser uma coisa de opinião única, uma arte de uma mão só, uma ida, um caminho. Arte é ramificada, obras de arte são veias que podem se encontrar ou não – e quanto mais se distanciam umas das outras, tanto melhor! Nos faz pensar, nos faz acreditar – finalmente- que não há uma só verdade. Por isso digo que devemos procurar sempre uma segunda, uma terceira, uma quarta opinião para que só assim possamos refletir realmente e tomarmos para nós mesmos o que achamos. Precisamos ser um pouco mais empiristas, lembrando sempre de jogar a própria opinião no meio de todo esse conjunto.
Parar de mimetismo – esconderijo, camuflagem – e tomar partido.
O que penso é que damos muito valor às obras-primas, taxando-as de difíceis e inacessíveis. Achamos que tais obras não nos servem. Ao contrário: servem e muito, só precisamos aprender como enxergá-las. Não podemos visualizá-las como obras pertencentes ao passado e só, sem uso para o hoje. Devemos, ao contrário, ser capazes de transportar esta arte para o que vivemos. Treinar a habilidade de levar o conceito da arte para a pós-modernidade.
Ao ouvirmos o mito de Édipo, por exemplo, podemos pensar que é algo inútil, velho e desgastado pelo tempo – sem perceber que ele continua atualíssimo, basta que o transportemos para o atual. Basta que mudemos palavras, tempos, pessoas, culturas, hábitos. A essência, essa, continua intacta. A humanidade anda em círculos. O que muda são os gestos, o tempo. A ideia é sempre original. Se soubermos como levá-la para o cotidiano, para o que nos cerca, toda arte é do presente. O problema é que isso não nos ensinam. Não nos ensinam a ver a raíz, só enxergamos o topo, o supérfluo, só conseguimos sentir o cheiro de antigo, as palavras arcaicas.
Os problemas continuam sempre os mesmos, os amores, as dores. É nosso dever restaurar, ensinar, aplicar diariamente essa habilidade esquecida de transpor barreiras para que a arte continue sendo arte – para que, mesmo antiga, a arte continue nos fazendo sentir e – principalmente – pensar.
Precisamos parar com a noção que nos implantaram de que arte é para poucos, arte é para burguês, elitizados. O que podemos e devemos fazer é transportar a arte e modificá-la para uma fácil compreensão nossa, sem retirar-lhe o sentido, o núcleo.
A morte de qualquer arte se dá quando separam(os?) o artista do público. Quando o público se torna passivo, a arte tem seu fim - ela se isola para poucos, perde uma de suas funções: a de acordar e atingir o maior número de pessoas possível.
O que podemos inferir se formos passivos continuamente? O que podemos pensar ou deduzir se recebemos a explicação do criador, mastigada, entregue diretamente em nossas mãos, e esquecemos de criar a nossa própria explicação? Quando recebemos a opinião do criador, esquecemos da nossa, por achar que qualquer coisa que fuja do que ele pensou está errada, e tomamos como verdades absolutas o que nos é mostrado. Sendo que arte está longe de ser uma coisa de opinião única, uma arte de uma mão só, uma ida, um caminho. Arte é ramificada, obras de arte são veias que podem se encontrar ou não – e quanto mais se distanciam umas das outras, tanto melhor! Nos faz pensar, nos faz acreditar – finalmente- que não há uma só verdade. Por isso digo que devemos procurar sempre uma segunda, uma terceira, uma quarta opinião para que só assim possamos refletir realmente e tomarmos para nós mesmos o que achamos. Precisamos ser um pouco mais empiristas, lembrando sempre de jogar a própria opinião no meio de todo esse conjunto.
Parar de mimetismo – esconderijo, camuflagem – e tomar partido.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Pensamentos são ideias mal feitas. Lucidez embriaga. Comprimidos na cartela. Ela inteira e o sono.
Se eu falo, vira concreto
Se eu falo, sai do ilusório e toma marcha. Quase acontece. Ilusão é vontade. Nunca me prendeu.
Eu vou. Pensei nisso e falei alto: engrenagens. Tomou rumo e saiu, aconteceu.
Palavras não voltam quando ditas. Sentimentos. Sem batimentos, sem amor. Mais vale um cigarro ou papel. Carícias de mãe.
Uma coisa pequena. Sem nome.
Se eu falo, vira concreto
Se eu falo, sai do ilusório e toma marcha. Quase acontece. Ilusão é vontade. Nunca me prendeu.
Eu vou. Pensei nisso e falei alto: engrenagens. Tomou rumo e saiu, aconteceu.
Palavras não voltam quando ditas. Sentimentos. Sem batimentos, sem amor. Mais vale um cigarro ou papel. Carícias de mãe.
Uma coisa pequena. Sem nome.
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