terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Carnaval sozinho
Semana sambando
semana bebendo
não lembrar nem nome
endereço, RG.
(...)
Quarta-feira de cinzas
me esqueci na sarjeta
mas lembrei de você.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

É quando me ligam que penso talvezeletenhameunúmero. É quando desconheço o número e mesmo assim atendo com um habitual alô e nada me respondem do outro lado. Nessas horas, penso: é ele, é ele que conseguiu revirar fichas, currículos, documentos e decorou aquela sequência de números anotando na mão como sempre fiz. Mas nada me dizem do outro lado, nem respiração se pode perceber. Eu falo mas não me respondem. Desligam. Ponho o telefone no gancho e espero o novo engano. Pensando em desespero que não é mais do que um modo de matar as saudades.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Comprava livros escondida. Escolhia os amarelados, puídos, com grandes escritos feitos com caneta. Escolhia seus livros de arte, de política e lia-os com avidez diante de uma lamparina fraca, temendo algo que a estragasse os olhos. Lia-os para integrar-se em outro mundo. Andava com eles debaixo do braço na esperança de que alguém a visse e sentisse orgulho da moça que ela era. Seus livros de Garcilaso, de arte contemporânea, de Sartre e Camus – pretendia entender a existência de todas as coisas mas, principalmente, dela própria. E no seu quarto largava-se ao chão assim que se encontrava sozinha. Era no tapete que saboreava cada figura dos livros, cada quadro apresentado com aqueles olhos gigantes que a fitavam das páginas velhas. E surpreendia-se com os olhos-amêndoa de Modigliani, sem pupilas ou nada que os denunciassem – somente o vazio ocular. Gostava da decadência de Schiele, do colorido de Renoir, do dourado-que-lhe-doía-nos-olhos de Gustav Klimt. Absorvia cada palavra nova- principalmente as mais fáceis que possuíam complicados significados como saudade, ou as gigantescas e complexas que tinham um significado um tanto simples como Serendipidade – o puro acaso, a coincidência. Anotava-as no caderno que carregava como se aquilo fosse valer pra sua vida. E as olhava com frequência, tentando absorver delas aquilo que outros absorveriam da vivência. Pudesse, rabiscava o corpo inteiro com tudo o que a constitui. Pudesse, seria um punhado de frases e desenhos e bordados. A mãe sempre com pé atrás ao deixá-la sozinha. Dizia da sua tendência natural às coisas tristes, ao abandonar-se no ócio dos movimentos – as ideias, não. Nunca paravam. - ao deixar-se sem alimento por dias pra sentir-se limpa de tudo. Tinha sempre companhia, não a deixavam. Quando sozinha, temiam um salto pela janela, um ferimento feito de propósito, um choro desmedido enquanto se desvencilhava de si própria, lutando contra o próprio corpo e batendo contra as paredes. Não podia. Ninguém sabia o que passava no dentro dela. Achava-se nova e cheia de uma vontade de mudar. A frustrava o fato de não conseguir nem a mudança em si própria nem nos outros. A frustrava o sentimento perdido ou mal aproveitado, o amor ruim, os acidentes. A frustrava seu conjunto de frases, seu mal jeito na própria expressão. Quando sozinha, queria mesmo era manter o silêncio mas achava impossível e pensava-se a ponto de enlouquecer e, como pensavam, pular pela janela. Bem às vezes lhe vinha a ideia de compreensão do universo e isso a deixava inquieta, como que com vontade de alertar os demais e escrevia. Escrevia, desenhava como louca, pintava paredes e mãos e dedos com frases e rostos sem forma e corações puros. Mas não a entendiam. Nem ela mesma. E se fechava com os livros na vontade de se fechar com pessoas. E criava seu mundo à parte na vontade de se integrar ao real.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Vou sentir falta das poucas vezes em que conversamos, fizemos madrugadas inteiras de conversas pelo computador onde nenhum de nós se atrevia a sair, para não perder as risadas. Éramos todas nós e você, o único menino do grupo, dizendo-se homem de todas, e ríamos. Faz tempo. Vou sentir falta de quando eu falava animada e de repente você saia sem dar explicação, não respondia nada enquanto eu esperava te xingando mas, depois, me acostumava falando um Ah-mas-é-o-Fabs-a-gente-entende. Nunca pude te ver pessoalmente e, mesmo assim, te sinto um amor gigante. Agora é aprender. Aprender, não, a gente nunca aprende a viver sem alguém – a gente só sobrevive.

É, Juvenar, tava tudo tão feio aqui, tudo poluído... lembro quando eu cantei essa música e você foi logo falando que também adorava. E virou como meu símbolo de amizade contigo. Ouço-a hoje, com você do meu lado. Porque sei que você tá aqui, junto da galera toda que te adora, xingando e deixando a gente sem resposta na conversa de madrugada. Imagino que esteja como na música: com porco, galinha, pato, carroça, cachorro, carro de boi, correguinho e tudo. Corre pro vento, Juvenar, e o abraça. Eu te amo!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Nos olhos, o brilho que denunciava o choro. Conheço bem, por sempre estar presente nos meus próprios olhos. O brilho estava lá, umedecendo- os. Achei lindo. Era a força da água derretendo minérios. Era a água de dentro dele criando força pra sair. Eu havia conseguido. Eu sabia que tinha só a casca de mineral. O por dentro dele era tão orgânico, tão feito de água quanto o meu. Talvez até mais. Eu só queria era ter transposto barreiras, ter feito com que ele percebesse e deixasse se perceber como água corrente. Não é fraqueza, não. Ser orgânico não é apresentar-se frágil ao mundo. É saber entendê-lo. É potencializar o que outros ignoram.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Abria o dicionário sempre na mesma página. Era pra não esquecer, mesmo que já tenha decorado, o que era saudade. A rigidez da explicação culta, a síntese em poucas palavras daquilo que ela nunca conseguira definir e trazia abstrato no peito. Saudade. Decidiu colar na parede, lá ficou.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Me encontro acamada. Nesse domingo chuvoso a única coisa que quero é escrever versos.

De xícara em xícara, consumo cafés com avidez enquanto procuro em páginas de livros amarelados a solução para todos os problemas. No meu caso, do amor.
Penso em cortar o cabelo. Uma mudança no por fora quase sempre vem acompanhada de uma mudança no por dentro. Não é real, a mudança. Mas alimenta a ideia. Ideias alimentadas valem mais do que a parte real delas.

Penso em jogar fora os papeis de meu quarto, as miudezas guardadas em caixas. Mas de nada adianta a limpeza quando eu mesma não posso me jogar pra ser recolhida ou reaproveitada.

Além do mais, a falta de ar nos pulmões me impede. Sempre que fico doente me vem os versos de Augusto dos Anjos: Profundíssimamente hipocondríaco...

Porque eu também sou filha do carbono e do amoníaco. Porque eu também, ao longo dos anos, me transformei em monstro de escuridão e rutilância.

Essa mania de querer ver poética no feio e no sujo. Essa mania de achar que posso transformar o cinzento dos meus dias com as palavras rebuscadas e a quebra da ordem canônica. Mas foi assim que joguei pão aos pombos, alimentei esperanças, me acreditei limpa, e melhor.

E foi com a falsa certeza do que eu era que ele me veio.