sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

É mais fácil esconder a tentativa
do que falar sobre ela.
Hoje me deu um medo de morrer
Porque me sinto já muito longe de todas as coisas
como se eu nada alcançasse
e nada me tocasse de volta.
Isso já é estar morto
nas memórias das outras pessoas,
E na minha própria memória.
Uma grande história de vida é também uma obra de arte
a pintura que passo no rosto ou nos cabelos
minha opção de roupa toda manhã
faz aquilo que sou
e o que fazem de mim.
Eu sou minha obra.
Meu corpo é ferramenta
minha dor, o meu choro, os meus ferimentos
nada é em vão.
Eu sou a arte.
Acho que é isso que se sente na catarse. Estou quebrada. Sinto fé na humanidade, sinto vontade de bater a porta de casa e sair por ruas pra ver gentes e cheiros e sensações que me foram privadas. Eu sinto que posso viver como quiser, respirar fundo e seguir em frente. E isso me dói. Estou limpa, de novo. Amanhã não como. O jejum é bom, dizem. Vestirei preto. Pintarei a boca. Pentearei o cabelo de um jeito novo. Com a cara de choro, essa mesma cara que não engana ninguém. Um ator não mente. Ele age. Os atos devem ser verdadeiros.
Não faço parte da minha própria família, nem da família dele. Estou perdida no meio de sobrenomes que possuo e que não. Só a assinatura me dá garantia. Mas não sou bem aceita em nenhum logradouro.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O siso é meu dente-autorretrato. Passei longo tempo com dentistas me dizendo que eu não o possuia. E a gente aprende a acreditar nos tais do jaleco branco. Por anos acreditei que passaria os dias sem o tal dente do juízo. Aos dezoito, o incômodo não só dos hábitos ou das zonas de conforto mas da dor de dente surgiu. O siso, ou o juízo, bateu no dente do lado, avisando presença. Não quis aparecer. Inteiro, totalmente formado e bonito, bonito como todo dente ou coisa de origem, antes que eu toque com minhas mãos, e deitado, como que sem força ou não se achando capaz de mostrar-se do lado de fora da minha gengiva. Assim como eu. Sem espaço, na boca, se espremeu como pôde.
Deitado, formado e com medo de sair pra ser julgado torto, mal sabe ele que, pelas suas escolhas e por quase atingir meus nervos, vai ser retirado. Pelo menos, pretendo guardá-lo. Já eu, não sei se teria a mesma sorte. O destino de alguns deve ser mesmo permanecer escondido. E dois corpos não ocupam a mesma sina.
Colocar a mão pra fora da janela
no carro em movimento
Os dedos cambaleando no ar
tão rápido que a mão vai para trás
E os cabelos vão todos pro rosto.
Há sempre uma mecha sorrateira
que gruda nos lábios de batom vermelho.

Colocar a mão e a cabeça pra fora da janela aberta
à noite, no carro em movimento.
Enquanto todo o resto está inerte.
Ver os outros rostos protegidos por trás de vidros
aquecidos pelo ar condicionado.
Condicionado, como tudo fora dos veículos, também é.